O Cinema Nacional e a Usabilidade na Web

Atualmente grande parte das agências web desenvolvem para o próprio umbigo, o mesmo ocorre com o cinema nacional cujo foco está na satisfação dos produtores e suga anualmente de nossos bolsos 800 milhões de reais, estes que poderiam ser melhor investidos se os interesses dos “cinespectadores” fossem levados em consideração.

Ipojuca Pontes, ex-Secretário Nacional da Cultura afirma:

Engana-se redondamente quem imagina que o cinema nacional, custando perto de R$ 800 milhões anuais ao bolso do contribuinte, tem algum compromisso com o desenvolvimento industrial e a auto-sustentação da atividade.

E por que a sétima arte brasileira não consegue se auto-sustentar? Que ponto a metodologia de desenvolvimento web mais utilizada tem em comum com a metodologia de produção de filmes nacionais?

Pode ser que Rodrigo Constantino, autor do livro “Prisioneiros da liberdade” clareie as coisas:

Muitos reclamam que Hollywood domina a indústria do cinema. Falam que os filmes americanos são “empurrados” para os consumidores, pela montanha de dinheiro gasta pelos estúdios. Mentira. A relação é inversa. Hollywood tem tanto dinheiro assim para gastar com filmes justamente porque agrada os consumidores. Cada novo filme é uma espécie de project finance, um empreendimento próprio. São milhares de alternativas, todos disputando a verba privada de financiamento. E a lógica vigente é a do livre mercado, onde o cliente final que seleciona os vencedores. Quem agrada o público, conhece o sucesso. E por isso vemos todo tipo de filme sendo produzido lá, para a satisfação de inúmeros nichos de mercado.

Já no Brasil, em estilo semelhante ao francês, são os produtores que buscam satisfação nos filmes, sem muita preocupação com o público. Ora, esta é a receita certa para o fracasso de bilheteria, e a concomitante verba minguada. Resta apelar para o “paizão”, o Estado. Assim, o dinheiro do público é usado na marra para o financiamento justamente de filmes que o público não quer. Para piorar a situação, o governo ainda cria as “cotas de tela”, uma reserva de mercado, impondo determinado número de dias mínimos para a exposição dos filmes nacionais. É a mesma “lógica” da fatídica Lei da Informática, onde, para “proteger” a indústria nacional, os consumidores são obrigados a comprar gato por lebre.

Preocupe-se em agradar seus usuários, talvez ninguém banque o seu fracasso.

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Ipojuca Pontes: Cineasta, jornalista, escritor e ex-Secretário Nacional da Cultura.

Rodrigo Constantino: Economista pela PUC-RJ, com MBA de Finanças pelo IBMEC. Trabalha no mercado financeiro desde 1997. É autor dos livros “Prisioneiros da Liberdade” e “Estrela Cadente: As Contradições e Trapalhadas do PT”, ambos pela editora Soler.

Referências: Cinema Trash, O cinema da mentira.

8 Respostas para “O Cinema Nacional e a Usabilidade na Web”


  1. 1 Yure!! 3 Setembro, 2007 às 2:47 am

    não acredito, por outro lado, que pautar a arte pela opinião pública seja lá muito saudável. agradar os consumidores de forma alguma é padrão de qualidade, como qualquer um bem sabe…

  2. 2 Jonas Felipe 3 Setembro, 2007 às 4:09 am

    Yuri,

    Qualidade é um conceito subjetivo, complicado e multidimensional.

    A regra é clara: Quando precisamos das pessoas, temos de agradá-las.

  3. 3 PC!freitas 3 Setembro, 2007 às 5:39 pm

    Que medo…

    No Blog o tal Rodrigo Constantino cita o cinema hollywoodiano como um modelo, o que atende aos espectadores, e critica o cinema brasileiro e francês. Caminho MUITO perigoso desse texto. Ele também afirma que o nacional é feito para produtores… gostaria muito ver uma lista de exemplos, para entender o que ele chama de cinema para produtores, principalmente exemplos desse cenário atual do cinema nacional.

    Como se não bastasse ele critica a verba destinada ao cinema nacional. Cinema é cultura, cultura é conhecimento, conhecimento é igual a uma população que sabe decidir melhor sobre seu futuro, e saberá escolher melhor seus governantes, criticar qualquer verba destinada a cultura é um grande erro. Mais uma vez o tenho medo deste texto.

    Ah! Sim! Mas o cinema hollywoodiano não precisa de apoio do governo, pois a grande maioria da verba vem da iniciativa privada, ops, mas isso é qualidade ou defeito? Temos 2 lados, um que faz com que o governo economize, e que viabiliza a confecção de super produções, e outro que faz com que o cinema seja um escravo das grandes corporações, e o resultado são filmes que além de tentarem influenciar seu estilo de vida, estimulam consumismo, e bombardeiam o espectador com merchandising. Tomem como exemplo o filme NAUFRAGO, com Tom Hanks, impossível não sair do cinema e ficar por bastante tempo com marcas como Fedex e Wilson impregnadas em nossas mentes. Isso é o que queremos? Isso é qualidade?

    Não sei exatamente como classificar esse texto do blog, mas discordo bastante.

    Um abraço…
    PC!freitas

  4. 4 Jonas Felipe 3 Setembro, 2007 às 7:09 pm

    PC!freitas,

    “Isso é o que queremos?”

    Absolutamente.

    Se não fosse o que queremos, não assistiríamos e as produções
    hollywoodianas seriam um fracasso.

    “Isso é qualidade?”

    Como disse no blog, na área de comentários, qualidade é subjetiva,
    complexa e multidimensional. Não tem como debatermos sobre isso.

    Mas…

    Um blockbuster pode ou não ser considerado um filme de qualidade,
    creio eu que o objetivo das produtoras seja o lucro, então, tendo
    foco nos “cinespectadores” e agradando a maioria, o objetivo é alcançado.

    E claro, nenhum filme arrasa no cinema se não for considerado de
    qualidade pelos espectadores, ninguém recomenda filme ruim aos
    amigos, eu pelo menos não.

    Agora se um filme que agrada a maioria
    não corresponde às nossas expectativas, para nós o filme é
    considerado de baixa qualidade, mas nada, no cinema, na tv e na área
    web(com exceções), é feito para a minoria, pois a minoria não
    consegue financiar os projetos.

  5. 5 Hudson 4 Setembro, 2007 às 12:35 pm

    Não se pode colocar usabilidade de um site e “qualidade” de um cinema no mesmo saco.

    Um é (ou deveria ser) arte. Como toda arte, deve sim, ser feita pensando no umbigo do artista/criador. Se ele não produz algo que o satisfaça, que exprima seus sentimentos e ideias, nao passa de um prestador de serviços, serviços esses que nem sempre precisamos. Mais ou menos como o cinema americano.

    Já a usabilidade é pura e simplesmente prestação de serviço, ela não pode ser autoral, artística ou subjetiva. Ela é feita para facilitar a vida do usuário.

  6. 6 Jonas Felipe 4 Setembro, 2007 às 1:33 pm

    Hudson,

    Cinema é prestação de serviço também, na área de entretenimento.

    Se você faz arte pra você, você pode se focar no seu umbigo.

    Se você faz arte para as pessoas, você é obrigado a agrada-las, senão qual o motivo da arte?

    Fazer algo que ninguém gosta e esperar o governo bancar é fácil, ai qualquer um pode ser produtor.

  7. 7 Rodrigo 29 Janeiro, 2008 às 5:09 pm

    Surgiu uma dúvida…o que IMPEDE que se façam no Brasil filmes financiados pela iniciativa privada?

  8. 8 Jonas Felipe 29 Janeiro, 2008 às 9:39 pm

    Olá Rodrigo

    Boa pergunta.

    Talvez um trecho do texto de Rodrigo Constantino responda à sua pergunta:

    “..Ora, esta é a receita certa para o fracasso de bilheteria, e a concomitante verba minguada. Resta apelar para o “paizão”, o Estado. Assim, o dinheiro do público é usado na marra para o financiamento justamente de filmes que o público não quer..”

    Você investiria seu dinheiro em algo tão arriscado assim como o nosso cinema, carregado com todo esse histórico de prejuízos?


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